… ― Quanta sopa! ― exclamou Gurdulu, inclinou-se dentro da marmita como se avançasse sobre uma sacada, e com a colher raspava sem parar a fim de arrancar o conteúdo mais precioso de cada marmita, isto é, a crosta que permanece presa nas paredes.― Quanta sopa! ― reboava sua voz dentro do recipiente, que, no seu temerário debater-se, entornou em cima dele.Agora Gurdulu estava prisioneiro na marmita virada. Dava para escutá-lo batendo a colher como num sino surdo e sua voz mugindo: “Quanta sopa!”. Depois a marmita se mexeu como uma tartaruga, revirou-se outra vez, e Gurdulu reapareceu.
Livro: O Cavaleiro Inexistente
Estava encharcado de sopa de repolho da cabeça aos pés, manchado, gorduroso, e além disso sujo de fumaça. Com o caldo que lhe escorria sobre os olhos, parecia cego e avançava gritando: “Tudo é sopa!”, com os braços para frente como se nadasse, e não via nada além da sopa que lhe recobria os olhos e o rosto, “Tudo é sopa!”, e numa das mãos brandia a colher como se quisese puxar para si colheradas de tudo aquilo que havia ao redor: “Tudo é sopa!”
Aquela visão provocou em Rambaldo uma perturbação capaz de fazer-lhe rodar a cabeça: mas era mais uma dúvida que um arrepio – que aquele homem que girava ali na frente sem enxergar tivesse razão e o mundo não fosse nada mais que uma imensa sopa sem forma em que tudo se desfazia e tingia com sua substância todo o existente. “Não quero me tornar sopa: socorro!”…
Autor: Italo Calvino
Páginas: 53-54
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2 respostas em “Quanta sopa!”
UIA!!!?? Visual novo???
pois é, gostei desse aqui! só não tive tempo ainda de fazer um header bonitinho… apesar do padrão ser bem estiloso!
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